Quando o Mundo Expande

Porque há momentos da nossa vida em que, visivelmente, nossas referências, sabedorias, formas de pensar e perceber expandem.

Você deve ter essa mesma sensação sobre momentos específicos da sua vida: há trechos do caminho em que o mundo expande. Acredito que esse efeito seja uma constante, já que a vida está em expansão como tudo no universo. Só que aqui quero falar dos momentos bem específicos em que nossas referências, modos de ver, percepções dão um salto, ficam maiores, ampliam. É como se o mundo crescesse de dimensão, as referências que tínhamos precisam ser atualizadas em grande escala. Um ponto específico da nossa linha da vida que cria uma espécie de boom de expansão.

Eu dou bênçãos a esses momentos. E posso listar alguns deles.

Essa sou eu esperando o momento de iniciarem a cesariana da Clara.

Quando eu me vi mãe aos 14 anos. – hoje olho para as meninas de 14 anos e não consigo acreditar que eu tinha apenas 14 anos quando fiquei grávida. Acontece que sim. E a Clara nasceu quando eu tinha 15 anos. Precisei ouvir de alguns mestre da falta de noção que minha vida tinha acabado, hoje só agradeço porque desde lá minha vida não acabou, pelo contrário, minha vida ganhou upgrade. Disparadamente, ser mãe da Clara fez minha vida incrivelmente ser elevada a outros padrões. Expansão pura!

Quando me mudei de cidade pela primeira vez com a minha filha. – foi preciso reunir uma grande dose de coragem nesse episódio. Surgiu um trabalho como professora numa universidade de Juiz de Fora e eu claro sonhava em ser professora e senti muito forte que precisava aceitar. Mas o salário era a conta certíssima para vivermos eu e a Clara, que na época tinha nove anos. Foi um salto de confiança. Desde lá eu e a Clara nos mudamos umas quase 20 vezes, incluindo a mudança para Manaus, para São Paulo, por Minas. Uma vida que se torna uma aventura da exploração.

Quando eu conheci Manaus. – foi num 21 de abril de 2009 que pela primeira vez estive em Manaus. Desde lá a cidade ganhou meu coração, até hoje fica difícil competir com a alegria que toma minha alma quando estou em Manaus. Menos de um ano depois eu estava me casando e me mudando para a cidade que me ensinou a ser mais água, a cidade que me ensinou o poder da espontaneidade. Nos cinco anos que vivi em Manaus tudo foi pura expansão, é quase difícil acreditar que todos os eventos que vivi couberam em cinco anos de história.

Quando estive pela primeira vez frente a frente com a floresta e os rios da Amazônia.– para além de Manaus há a Amazônia. Manaus é a cidade. A Amazônia é o que torna estar em Manaus poderoso e transformador. Não tenho referência de nada que possa ser mais poderoso que as florestas e os rios da Amazônia. Há uma força transformadora que costumo brincar que é um adianto cármico poderoso. Tantas águas e tanto verde mexem com nossas centelhas mais profundas e me fizeram expandir de uma forma que não consigo nem colocar em palavras.

Quando subi pela primeira vez o Monte Roraima. – esse ponto de transformação foi tão intenso que me rendeu um livro inteiro, meu primeiro livro Para Sempre Um Novo EU. O Monte Roraima é o grande marco da minha vida.

A caminho do Monte Roraima pela primeira vez, em 2011. Mal sabia eu tudo o que me esperava dali para frente.

Quando fiz meu primeiro salto de paraquedas e quando concluí o meu curso de paraquedismo. – hoje eu não teria a coragem que tive naquela época. Há desafios que me coloco e que acabo trabalhando as minhas emoções de um jeito que não tem igual. O curso de paraquedismo foi assim. Depois de ter feito um salto duplo, inclusive foi com o Coronel Leite, ele é super famoso do Discovery, coloquei na minha cabeça que eu tinha que fazer o curso e assim foi. Levei seis meses fazendo os oito saltos que compunham o curso. Seis meses em que pude trabalhar meus medos de um jeito que nenhuma terapia teria sido capaz de me ajudar.

Antes da decolagem, revendo as orientações de segurança. Meus olhos de atenção total.
Essa sou eu em meu paraquedas. Preparando para o pouso, pura emoção.

Quando conheci o Deserto do Atacama. – esse momento foi muito curioso, porque eu não estava nem um pouco animada para a ida ao Deserto do Atacama. Era ano novo de 2014 quando meu então marido Leonardo preparou esse roteiro para fazermos. Eu olhava da janela do avião toda aquela areia em revoadas lá fora, aquele soooool que parecia aquecer o deserto de um jeito sem igual e trabalhava meu humor para ser o mais agradável possível. Acontece que quando as portas da aeronave abriram e o vento gelado em pelo sol rachando me gelou a coluna, eu soube que aquele lugar em surpreenderia. O Deserto do Atacama tratou as minhas profundezas e se tornou um lugar sagrado de cura e reconexão para mim.

O deserto me surpreendeu e ganhou meu coração. Aí uma das muitas boas fotos que tenho graças ao Leonardo. Esse é um lugar sagrado de reconexão pra mim. Tanto é que foi lá que retornei para concluir a cura do meu punho quebrado anos depois.

Quando levei minha filha para dar um passeio na London Eye. – há momentos da vida que nos lembramos com detalhes do nosso pensamento. E naquele dia, a imensa roda gigante de Londres era o ponto turístico onde eu e a Clara tanto queríamos estar. Talvez a mesma emoção eu pudesse narrar sobre a Torrei Eifell, onde eu tinha estado poucos meses antes. Mas na London Eye foi diferente. E foi porque as rodas gigantes nos lembram os sonhos da infância sendo realizados. Ali eu me realizava como mãe. Ter tido a Clara com 15 anos e me ver ali aos meus 30 anos era um símbolo do quanto eu havia me dedicado a assumir as responsabilidades de ser uma boa mãe. Só eu sei e a Clara sabemos o quanto estar ali era uma grande vitória.

Quando fiz os 800km de Caminho de Santiago. – o Caminho de Santiago é sobretudo um caminho humano e isso faz dele um caminho muito espiritual. Avançar dia após dia, passo após passo, rumo a Santiago de Compostela faz com que algo se purifique em nós.

Esse foi o meu encontro com o mar depois dos 800km de Caminho de Santiago. Onde pude pegar em meio às algas minhas próprias conchas de Finesterre, onde a terra termina.

Quando aprendi sobre e vivi de luz. – esse é um momento marco. Meu amigo Herbert me contou que havia uma forma de se alimentar pela luz, absorvendo a partir do prana todo o alimento que precisávamos. Fui estudar e me encantei. Quando fui ao Monte Roraima pela terceira vez eu me coloquei nessa experimentação transcendental e o que descobri foi além do que a minha razão poderia alcançar. Somos capazes de absorver alimento a partir da luz que fica disponível no ar (prana) e a energia que percorria meu corpo era incrivelmente superior a qualquer outra referência que tenho.

Quando passei duas noites inteiras em claro para o ritual com a planta do Gabão. – foi em outubro de 2017 que vivi esse ritual. Quando fui convidada, me disseram: “Paula, você vai ter outro marco na sua vida tão único quanto o Monte Roraima”. Não sei se chegou a ser tão grandioso marco assim =)), mas foi quase. A Planta dialoga conosco conscientemente entrando em nosso DNA e corrente sanguínea, percorre nossas emoções, histórias, lembranças conscientes e inconscientes, e trouxe absolutamente todo o tabuleiro dessa vida para a consciência. Um dia conto mais.

Quando minha irmã faleceu. – também quando alguém próximo parte desse mundo para outro mundo algo em nós expande, precisa expandir para caber o outro e todo o amor que sentimos de outras formas. Minha irmã se foi muito jovem, aos seus 33 anos, e a sua partida não só trouxe dor, pelo contrário, claro que sinto saudades, mas aprendi a reencontrar minha irmã de tantas maneiras desde que ela se foi. Graças à Bruna eu sigo a expandir meus mundos.

Eu e a irmã agora dando um jeito de fazer brincadeiras para além desse mundo.

Quando perdi minha mala na Alemanha. – não posso negar que gosto dessas aventuras. Sou distraída, tenho meus lapsos. E nesse dia eu me recuperava de 3 dias de febre que me deixou de cama. Acontece que ao me transportar de uma cidade para outra num desses ônibus intermunicipais, esqueci a minha mala dentro do bagageiro do ônibus e ela nunca mais foi encontrada. Fato é que passei quase 10 dias perambulando pela Alemanha e Polônia apenas com uma roupa que eu lavava à noite e no dia seguinte estava nova para caminhar. Acho graça e me sinto num filme, um tipo de alegria muito peculiar me invade quando vivo esses meus feitos.

Acredite, essa experiência de perder a mala vai render meu próximo livro. Das Perdas e dos Refazimentos.

Quando debaixo da Cachoeira de Iracema, em Presidente Figueiredo, eu soube que era para me mudar de São Paulo. – já estava há três anos em São Paulo e por mais que eu ame a cidade, ela estava me cobrando muito caro, meu corpo dava sinais de exaustão e eu sabia que precisaria fazer alguma mudança. E você sabe, há mudanças que podemos adiar muito, mas ali, no meu caso, eu poderia ir morrendo aos poucos como o sapo que é cozido aos poucos em água fervente e não percebe que é hora de pular. Foi debaixo da maravilhosa cachoeira de Iracema, floresta amazônica, que eu ouvi a voz sábia e me orientar “é hora de mudar de São Paulo, faça isso imediatamente”. Foi uma grande expansão, ou talvez nem entre como expansão, mas um momento que mudou meu rumo e que provavelmente salvou minha vida.

Você deve ter sua lista. Se não for consciente, é inconsciente. Você sabe bem que momentos são esses que parecem condensar a expansão, abrigar as chaves que dão acesso à outros níveis da nossa percepção. Abençoo esses momentos para que eles sigam sendo abundantes, para que as expansões sigam como parte do meu caminho.

Paula Quintão

10 de julho de 2021

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