Preparando a mochila

Uma mochila bem preparada para os caminhos que lhe aguardam.

Aqui estou eu a escrever esse post ao lado da minha fiel escudeira, a Deuter 55, ela que me acompanha desde o meu primeiro sonho rumo ao Monte Roraima em 2011. Naquela época eu não sabia bem como me sentiria fazendo uma trilha, muito menos como seria ir ao topo da montanha. Não tinha a menor ideia se o meu corpo aguentaria os tantos quilômetros que me aguardavam, os momentos de sol e chuva. Tinha minhas preocupações sobre as logísticas, sobre as alimentações, sobre meu emocional e principalmente sobre meu corpo.

Uma mochila não é apenas aquela que guarda o que você vai precisar durante seus caminhos. É muito mais que isso, ela guarda de certa maneira suas recordações, seus sonhos ainda a serem vividos, suas esperanças e sussurra sobre quem é você.

Uma mochila não é apenas aquela que guarda o que você vai precisar durante seus caminhos. É muito mais que isso, ela guarda de certa maneira suas recordações, seus sonhos ainda a serem vividos, suas esperanças e sussurra sobre quem é você.

As trilhas, provável que você saiba, pedem por um preparo. E sim, é um preparo do corpo, um preparo emocional. Mas é também um preparo da mochila.

Naquele 2011 foi em maio que comprei minha mochila. Pouco mais de um mês antes de ir para a primeira expedição ao Roraima ela chegou na minha vida. Escolhi a melhor mochila que me indicaram na loja naquele dia, nem sei como foi possível na época de finanças apertadas que eu vivi. Mas foi possível. E num grande embrulho eu levei ela da loja para o hotel em São Paulo e de São Paulo para minha casa em Manaus. E da minha casa em Manaus para o Monte Roraima. E do Monte ao Monte novamente. E ao Monte novamente. E à Trilha Inca. E à Patagônia. E à Europa. E ao Caminho de Santiago. E a tantos lugares onde foi possível irmos juntas, eu e a mochila.

Minha mochila não é a mais leve. Não tem a melhor tecnologia para as costas. Nesses 10 anos imagine o quanto não há versões muito mais avançadas que ela. Mas eu amo essa mochila. Ela fala comigo. E nos entendemos. As vantagens que poderiam haver em outras mochilas ela de alguma maneira compensa pela sintonia e pelo quanto nos conhecemos.

No Caminho de Santiago é ideal ir com uma carga que tem proporção em relação ao seu peso, não me lembro se era 10%, mas no meu caso o peso da mochila era uma imensa desvantagem (além do peso do meu saco de dormir, totalmente old fashion, estou chegando a conclusão que sou uma peregrina vintage). Mesmo assim, lá fomos nós 800km de andanças. Fizemos história – histórias que as estrelas me viram cruzar =)).

Tenho esse papel impresso desde 2011, completou 10 anos agora em junho de 2021. Sempre o consulto para montar minha mochila para as trilhas. Fui aprimorando a lista ano a ano. PS. mineira que sou, tem queijo parmesão na minha lista hahahaha
Uma mochila bem feita te prepara para qualquer clima, aí estou eu pós as chuvas na Patagônia Chilena.
(foto, Leonardo Blasch)

Hoje estava aqui organizando o que vai dentro dela na próxima expedição às montanhas.

O preparar da mochila é um ritual dos mais lindos. Se você o fizer com o respeito que merece vai perceber o quanto esse momento é uma metáfora que se encaixa em tantos episódios da vida. Tenho aqui uma impressão há 10 anos dos itens que devo levar na mochila. Esses itens são os essenciais. O que vai te auxiliar a percorrer seus caminhos em segurança, com conforto, com relativamente tudo o que precisa. Suas roupas, suas meias, seus itens de primeiro socorro. A mochila acomoda o essencial. De um jeito ou de outro as coisas vão compondo seu espaço interno, ela que à princípio parece tão grande logo vai mostrando que nem tudo o que você gostaria de levar vai ser possível forçar para entrar dentro dela. E do essencial ainda será preciso selecionar o que não segue viagem.

No Caminho de Santiago, por serem longos dias de peregrinação – no meu caso foram 36 dias – muitas coisas que levamos na mochila precisam ser descartadas ou trocadas (além de lavadas, é claro). E ao longo do Caminho sempre há uma bota que rasgou, uma blusa que não querem mais, algumas meias que furaram. E a mochila vai sendo refeita e atualizada, preenchida por novos componentes, viva. Eu me lembro de carregar comigo sempre algum lanche, mesmo havendo muitas paradas pelo Caminho. Queijo. Um pãozinho. Minha mochila também me servia para ao longo do dia pendurar minhas imensas calcinhas que precisavam secar ao sol – não estava no clima da sedução, então as calcinhas beges e imensas me garantiam uma certa mensagem “me deixem na minha”.

Quando damos conta da nossa mochila, não queremos guerra com ninguém. (foto, Leonardo Blasch)
Foi na Serra Fina onde eu carreguei pela primeira vez minha mochila por toda uma expedição. Tinha dúvidas sobre minha capacidade de realizar essa proeza, mas incrivelmente o corpo atende ao pedido da mente.
Ai minha fiel escudeira no Caminho de Santiago, esse foi meu dia de chegada em Santiago. Mal podia acreditar, foi um dia de jogar muitas roupas fora, era impossível fazê-las ficar cheirosas naquela altura do campeonato. A mochila agradeceu a liberação.
Mood peregrina de Santiago, definitivamente minha mochila tinha mais peso do que deveria, mas fomos firmes e fortes nos 36 dias de expedição.

Mas há algo curioso para mim. Por mais que você cheque os itens que precisa ter na mochila, é claro que ao longo do seu caminho vai faltar algo. Aquele bandaid que não foi. Aquela linha que esqueceu. Aquele cortador de unha que ficou para trás. Mas tal qual a vida acontecendo em que por mais que nos preparemos nunca estamos 100% prontos, para aquilo que nos falta, alguém pode ter para emprestar em sua mochila, ou você pode improvisar com outra solução, ou seguir caminhando até que esqueça do que estava precisando, ou simplesmente ter que lidar com o que faltou.

Há uma emoção em preparar uma mochila para um caminho, para uma expedição, para uma trilha. Aqueles momentos em que você checa item por item, compondo e compondo, não só trazem a magia do que está porvir, mas acaba também relembrando os caminhos percorridos, os perrengues passados, as histórias vividas. Hoje tive essa sensação. E é uma sensação sem igual.

Gosto sempre de deixar a mochila num lugar do meu quarto onde eu posso vê-la. Nesses 10 anos de história, todos os momentos em que a mochila estava fora da minha vista nos tantos lugares onde morei, foram aqueles em que eu mais estava desconectada da minha alma. Hoje me alegro por estarmos frente a frente, por nos vermos todos os dias, e por haver tantos caminhos para ainda percorrermos e tão boas lembranças para relembramos.

É pode experimentar uma verdadeira emoção se estiver presente olhando para a sua mochila. Talvez seja coisa minha. Se estivermos atentos, é possível que ela nos conte uma ou mais histórias, tanto as que já foram vividas, quanto aquelas que nos aguardam no futuro. O que levamos dessa vida, afinal, são nossas bagagens vividas. Tudo está na mochila, para hoje, para amanhã.

Um salve às mochilas e às nossas bagagens – as que seguem nas costas e as que carregamos dessa vida.

Paula Quintão

08 de agosto de 2021

2 comentários

  1. Luciana

    Inspirador. Consegui reviver minhas trajetórias para longe do ninho, apenas lendo esse texto. E a sensação de refazer a mochila é deliciosa. Pensar em tudo que será vivido e cada nova descoberta pelo caminho. Essa abertura para o novo revigora meu ser. Obrigada por compartilhar conosco, Paula.

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